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Arquidiocese de Botucatu

Artigo – (Pe Jean) – “O que pedirdes em meu nome, eu o farei” (Jo 14,13)

 “O que pedirdes em meu nome, eu o farei” (Jo 14,13)

 

Certa vez, um pregador de retiros espirituais disse que, no Brasil, nós rezamos muito e oramos pouco! Qual seria a diferença entre rezar e orar? A diferença está na atitude e não na forma, ou seja, no modo como vivemos a oração. Ao falar do rezar, o pregador pensava na oração aprendida à memória ou apoiada em fórmulas conhecidas. A reza, normalmente, é caracterizada por um louvor, seguido de pedidos. Nela, o espaço para ouvir é muito pequeno, porque preenchido por muitas palavras e necessidades do quotidiano.

Orar corresponde com uma disponibilidade interior, de quem, aos poucos, renuncia a falar muito, para viver a presença de Deus. Pode-se começar com alguma reza, sobretudo, aquelas reconhecidas pela Igreja, que nos educa na escuta da Palavra de Deus. Com uma linguagem comunitária, a reza pode “aquecer” os motores para a oração. Mas, a oração busca, sobretudo, a comunhão vivida no silêncio eloquente de Deus (Jo 6,68-69), que faz ressoar sua vontade salvífica em nosso interior e, de consequência, irriga nossa vida com seu amor (Jo 4,23-24; 6,63).

Em João 14,13, Jesus diz: “O que pedirdes em meu nome, eu o farei, a fim de que o Pai seja glorificado”. Ao falar de pedir, Jesus reconhece como legítimo o fato do homem elevar (rezar) seus pedidos a Deus. Ele mesmo se faz encarregado de levar os pedidos ao Pai e de realiza-los, como o verdadeiro mediador entre a humanidade e Deus.

Para evitar interpretações muito supersticiosas e estranhas ao evangelho, é necessário aprofundar o que Jesus disse, pois o texto é desafiador! Pedir em seu nome não quer dizer invocar uma força divina, um herói distante, para que ele supere nossos problemas. A preposição em + o (“no”) sugere, antes de tudo, a ideia de estar num “lugar”. E este lugar não é um espaço geográfico, mas uma pessoa, Jesus. Por isso, rezar/pedir “no seu nome” quer dizer que devemos nos colocar “em Jesus”, em união e identificação com Ele e com seu modo de viver (Jo 13,13-14). Somente assim, Ele se torna um lugar de encontro com Deus (Jo 14,6-10).

Ao ocupar este “lugar santo”, nos descobrimos habitados por Deus (Jo 14,11) e capazes de obras maiores (Jo 10,12). Obras identificadas na vida da comunidade. Neste sentido, o conteúdo do pedido/reza, não se confunde com nossos interesses e necessidades pessoais. Evidentemente, as questões concretas do dia a dia não deixam de ser importantes, pois o Pai não é indiferente às nossas necessidades e dificuldades.

O pedido é orientado à glorificação do Pai no Filho (Jo 14,13b). Na atitude orante, então, aprendemos a pedir aquilo que nos faz crescer na experiência da fé (Jo 16,13-15), como testemunhas comprometidas com o evangelho, no esforço concreto e diário do amor ao próximo (Jo 13,34 [Lv 19]). Quanto mais a oração nos aproxima uns dos outros, mais somos obedientes como o Filho (Jo 4,34; 5,19.30; 6,38-40 [Mt 7,21]) e mais a Igreja, comunidade dos filhos e filhas de Deus, colabora com a missão de Jesus (Jo 17,3-9) de glorificar o Pai (Jo 15,7-17), proclamando o tempo novo da graça (Jo 14,15-18). Se a reza leva o nosso quotidiano a Deus, a oração traz Deus para o nosso quotidiano!

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