Arquidiocese de Botucatu

HOMILIA PARA O XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35

A leitura do capítulo dezoito do Evangelho segundo Mateus continua a partir dos vv.21-35. O discurso comunitário contido neste capítulo serve para iluminar e oferecer balizas para os discípulos de todos os tempos e lugares acerca do modo de se viver e crescer enquanto comunidade do Reino, dos seguidores e das seguidoras de Jesus de Nazaré. A comunidade deve ser espaço de acolhimento, de perdão e de promoção da vida das pessoas. Com a introdução que fora feita na meditação anterior, pode-se adentrar no horizonte do texto bíblico proposto e meditá-lo a partir do questionamento que Pedro faz a Jesus.

No v.21-22 temos o diálogo entre Pedro e Jesus acerca do Perdão: “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”. A pergunta pode soar intimista ao ser direcionada para eventualidade de o irmão pecar contra ele (contra a comunidade). A pergunta de Pedro deve ser compreendida da seguinte forma: quantas vezes se pode permitir ao irmão que pecou contra o projeto do reino, vivido pela comunidade, voltar para o seio da comunidade? Pedro pergunte se até 7 vezes, como que tentando induzir a resposta do Mestre. Este número de ocorrências, na verdade, é uma lembrança para a máxima vingança ocorrida no Antigo Testamento: a vingança de Lamec. O número sete é plenitude de ação.

Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas setenta e sete vezes” (v.22). Sempre que a pessoa quiser voltar, deverá ser acolhida, mesmo que se anteveja sua queda. A resposta de Jesus não visa estabelecer uma quantidade, mas a qualidade da atitude do perdão e da acolhida fraterna, em relação ao irmão que errou. Perdoar sempre! Todavia, deve se fazer uso do recurso da fusão dos horizontes – o horizonte narrado e o tempo da comunidade mateana. A comunidade se depara com o problema dos “Lapsis”, aqueles que caíram na fé diante da perseguição do Império Romano e do Judaísmo formativo da época. Eles renegavam a fé por medo de morrer. Mais tarde voltavam arrependidos para comunidade e pedia-lhe acolhimento. Existiam correntes severas de cristãos que pensavam que, uma vez acontecida a queda da pessoa, esta seria definitiva, e não se admitiria o seu retorno à comunidade. O indivíduo renegou sua fé por medo, e não por convicção. Então, nesse caso, ao invés da máxima vingança, o máximo perdão deve tomar lugar na vida comunitária.

Jesus, do v.23-34 entabula uma parábola. Tomemos a primeira parte dela (23-27). Muitas vezes, as parábolas possuem alguns elementos que são demasiado exacerbados. É o que faz com que o leitor-ouvinte seja provocado e chamado sua atenção. Começa com a história de um rei a quem se lhe devia muito dinheiro. Ele manda chamar, primeiramente, a um servo que lhe devia dez mil talentos (de ouro ou prata). Um talento pesava em torno de 34,232kg. Multiplique-se por dez mil. Logo, uma soma impagável. Não tendo o servo condições de pagar, o rei sentenciou que o servo fosse vendido como escravo, juntamente com sua mulher e filhos. O empregado, se ajoelhando diante do soberano, pediu um prazo para o pagamento da dívida. O rei, por sua vez, compadecido (cheio de misericórdia), atende-o, perdoando a vida. Parece um absurdo: o sujeito deve uma enorme fortuna, está preste a ser penalizado, e o rei o perdoa.

A parábola continua no v.28. Jesus ressalta bem uma discrepância: o servo devedor devia uma quantia impagável. Ao passo que seu companheiro lhe devia cem denários (menos de 30g de ouro; ou equivalente a três meses de trabalho). O servo não compreende a dívida irrisória e pagável de seu companheiro. Ao ser agarrado pelo servo, o companheiro devedor suplicava-lhe um prazo para o pagamento. O servo cruel não deu ouvidos e o lançou na prisão. Interessante, o primeiro foi objeto de misericórdia. Mas ele mesmo não usou de misericórdia para com o companheiro devedor.

Os que ficaram sabendo da atitude do servo foram ao rei e o delataram. O rei chamou-o, e, interrogando, disse: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”. O rei irritado mandou entregá-lo aos carrascos e lançá-lo na prisão, ordenando que não saísse de lá até que pagasse toda a dívida. A partir da fala do rei, o que se esperava do servo? Ora, assim como ele foi perdoado, que desse também ele, o passo do perdão para com o companheiro que o suplicava. Dar o passo da misericórdia. Mateus, recuperando o ensino de Jesus propõe, para sua comunidade, que ela seja, constantemente, espaço de exercício da misericórdia.

Chegamos, pois, à conclusão do discurso eclesial, com o v.35: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. Em mt 6,9-13, Jesus ensinara seus discípulos a rezar. Na oração do discípulo do Reino contém o pedido do perdão de si: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. É um perdão gratuito de Deus, mas que deve ser medido na vida do fiel a partir de seus atos.  Essa atitude do fiel é modelo para atitude (escatológica) de Deus. O discípulo oferece à Deus seu modo histórico, concreto e real de perdoar como parâmetro para que Deus possa agir em relação a ele, no perdão escatológico. Isto é profundamente comprometedor! Pois, na oração do Senhor, pede-se ao Pai, que, escatologicamente – na plenitude da vida do âmbito de Deus – tenha a mesma atitude que o fiel teve no decorrer de sua história e de seu discipulado-missionário.

A conclusão da parábola toca diretamente o modo de proceder da comunidade. Quem não perdoa o irmão de coração, será tratado pelo Pai do Céus como um devedor desumano. Em outras palavras, por maior que seja o perdão concedido ao irmão reincidente da comunidade, será menor que o perdão recebido diariamente do Pai do Céus. O perdão concedido aos irmãos “setenta e sete vezes” decorre do perdão provindo do Pai. Portanto, quando a comunidade se dispõe a perdoar irrestritamente, imita o modo de proceder de Deus, donde provem um perdão ilimitado.

A pessoa que foi destinatária do amor misericordioso de Deus deve ser instrumento desta mesma misericórdia na vida do outro. E, no âmbito da comunidade, existir espaço de acolhimento e reintegração; uma verdadeira casa de misericórdia. Questionemo-nos se nos identificamos com algumas destas personagens da parábola; se com Pedro, que tenta impor ao Mestre sua maneira de ser (pensar) e agir. Interroguemos se, enquanto discípulos, e como comunidade, temos agido segundo o proceder e o querer de Deus.

Pe. João Paulo Sillio.

Arquidiocese de Botucatu – SP.

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