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Arquidiocese de Botucatu

Mês da Bíblia: Viver a Palavra no hoje

Erik Amaral Leme[1]

Rafael Augusto da Costa[2]

Celebramos o jubileu de ouro do mês da Bíblia no Brasil, e a proposta deste ano é refletirmos sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas. Nesta iniciativa de reflexão e comemoração tão importante para a Igreja no Brasil, preparamos uma reflexão falando sobre a história e motivações do mês da bíblia, sobre o contexto e teologia da Carta aos Gálatas, e da importância da Palavra de Deus na Igreja no Brasil e no Mundo.

 

Mês da Bíblia

No Brasil é tradição o mês de setembro ser dedicado à bíblia. Mas por que justamente este mês foi escolhido? O motivo se dá pela festa de São Jerônimo no dia 30 do mesmo mês. Este santo viveu entre 340 e 420 e foi o responsável por revisar e traduzir toda a Sagrada Escritura dos originais em hebraico, grego e alguns trechos em aramaico para o latim. Essa tradução recebeu o nome de vulgata que significa popular, ela continua sendo referência para novas traduções até os dias de hoje

O Mês da Bíblia surgiu em 1971, por ocasião do cinquentenário da Arquidiocese de Belo Horizonte, Minas Gerais. Estendeu-se a nível nacional após a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) assumir essa comemoração em 1985. Um dos motivos para ter um mês voltado para a Bíblia é o de contribuir para o desenvolvimento da presença da Sagrada Escritura, no Brasil e incentivar o diálogo entre as pessoas e Deus através da Palavra Divina.

O tema do mês da bíblia deste ano é a Carta de São Paulo Apóstolo aos Gálatas e o lema: “pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28d). Este livro apresenta fortes traços teológicos e doutrinais, mas também grandes reflexões sobre a liberdade humana e a força libertadora da fé. É a partir do Batismo e do revestimento de Cristo, que todos somos “filhos de Deus” em unidade. A Carta aos Gálatas é um convite para a superação de uma vida cristã fundamentalista, e insiste no compromisso radical com o Evangelho de Jesus Cristo.

Carta de São Paulo ao Gálatas

A Carta aos Gálatas será o texto de reflexão do mês da Bíblia, deste ano. Esta carta considerada protopaulina, ou seja, que Paulo a tenha escrito realmente, é destinada às comunidades cristãs que viviam na região da Galácia, atual Turquia. Segundo os biblistas estas comunidades se localizavam no norte da Província Romana da Galácia, e eram marcadas pela economia fortemente agrária. Ali viviam vários povos, principalmente os celtas oriundos da Gália que motivaram a denominação desta região; este povo era em sua maioria pobres e escravos.

Paulo evangelizou a região da Galácia durante sua segunda viagem missionária, por volta do ano 46; se estabeleceu na região por conta de uma doença e se impressionou com o entusiasmo e solidariedade daquele povo, além de aceitar rapidamente a fé se empolgou com aquele anúncio. Em sua terceira viagem missionária, Paulo passa novamente por aquela região por volta do ano 52, mas já encontra outra realidade, que mais tarde o fará redigir a carta aos gálatas.

Entre os anos 53 e 54, Paulo estava em Éfeso ao redigir a carta aos gálatas, segundo um consenso dos estudiosos bíblicos. Considerada uma carta mais dura, mas ao mesmo tempo muito pessoal, traz em seu conteúdo o desejo de Paulo afirmar e defender o seu Evangelho e Apostolado, frente aos ataques de um grupo de cristãos-judeus radicais, chamados judaizantes. Os judaizantes buscavam introduzir nas comunidades de gentios a aplicação da lei mosaica, marcada pela circuncisão e a lei do puro e impuro. Estes se tornaram opositores radicais de Paulo, pregando uma salvação pela lei e contribuindo assim para uma religião fundamentalista e segregacionista, longes dos ideais paulinos.

O conteúdo da carta será a defesa de Paulo frente as acusações dos judaizantes. Paulo trabalha o tema da fé, da justificação, da redenção, da salvação e da liberdade. Ele afirma ser o Evangelho que prega, o verdadeiro Evangelho, uma vez que ele é revelado pelo próprio Jesus à Paulo. A revelação do amor do Pai à Paulo é a fonte de sua vocação. Sua vocação é ser apóstolo entre os gentios, esta é também sua atividade missionária, que se firma no Evangelho por ele anunciado, Paulo recebe sua vocação de forma divina, e é enviado pelos apóstolos reunidos em Jerusalém (Gl 2,7-9).

O Evangelho Paulino é o anuncio da vitória de Jesus sobre a Morte, o anuncio da liberdade e de uma vida nova. Outro evangelho, como aquele dos judaizantes, é aquele que se molda segundo o interesse de alguns, para justificar ideais fundamentalistas, conservadores, que aprisionam e não promovem a vida e dignidades humanas. Paulo tenta dizer a nós: o Evangelho carrega um ponto fundamental este é “lembrar dos pobres” (Gl 2,10).

Tendo afirmado o Evangelho de Cristo, Paulo transmite seu ensinamento sobre a Justificação, Redenção, Salvação e a Fé. Na visão dos opositores a aliança era algo bilateral, uma espécie de contrato, onde Deus cumpria sua parte e o homem seguia as Leis; Paulo afirma que não! A Aliança é unilateral, ela é pura gratuidade de Deus aos homens, e assim como foi benevolente com Abraão, agora em Cristo cumpre-se plenamente esta Aliança, a benção a todos os povos prometida à Abraão, em Jesus torna-se a justificação de todos pela Fé.

 A justificação, segundo o conceito paulino, é viver em relação com Deus, uma relação alicerçada na fé. A fé é adesão total ao amor de Deus comunicado em Jesus, manifestado no mistério pascal, esta adesão se dá pelo Batismo e implica uma vida nova. O Espírito Santo torna os batizados novas criaturas, portanto uma nova vida pautada no seguimento e na configuração ao crucificado. “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)

Batizados somos filhos de Deus, portanto somos livres. Uma liberdade segundo a feição do crucificado, e não uma liberdade libertina. Isso diz que a liberdade para Paulo assume dois aspectos, o primeiro da igualdade e unidade onde toda diferença e desigualdade são superadas, o segundo aspecto é que o nosso agir deve ser guiado pelo Espírito, para produzir frutos. Os frutos são todos aqueles que criam unidade (Gl 5,22), enquanto as obras da carne dividem (Gl 5,19-21).

Gálatas pode ser visto como o Evangelho da Liberdade. “Não esqueçam os pobres!” (Gl 2,10) e “sejam livres!” (Gl 5,13). Uma carta que diz muito ao nosso tempo, nos ensinando em qual Evangelho se fundamentar; ensinando a necessidade de lutar pela igualdade das pessoas; ensinando a superar as formas equívocas e antigas de uma religião imposta, de ideologias que matam, de pensamentos indiferentes. Gálatas nos chama à liberdade com Cristo, para nos tornarmos imagem de Cristo.

A Palavra de Deus na Igreja no Brasil

As “Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil” salientam a vocação de todos os fiéis em anunciar a Palavra como missionários, para promover a paz, superar a violência, construir pontes em lugar de muros, oferecer a misericórdia de Jesus e reacender a luz da esperança, para vencer o desânimo e as indiferenças. É a Igreja que se volta ao seu Senhor para compreender a realidade e discernir caminhos, tendo a certeza que o próprio Deus se faz presente e caminha conosco, seu povo.

O mesmo documento reforça a casa como sendo meio privilegiado para o encontro e o diálogo de Jesus e seus seguidores com as diversas pessoas. Na Igreja Cristã primitiva os discípulos reuniam-se comunitariamente nas casas para a fração do pão e procuravam escutar o chamado do Senhor através da comunhão e missão. Nelas existia uma reciprocidade que se caracterizava pela solidariedade e acolhida de todos. A casa permitiu que o cristianismo primitivo se organizasse em pequenas comunidades, com poucas pessoas que se conheciam e compartilhavam a mesa da refeição cotidiana. Pela partilha da mesa com todos os batizados se estabelecia um novo estilo de vida, marcado pelo seguimento de Jesus Cristo.

A comunidade eclesial é sustentada por quatro pilares fundamentais: Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária. O Pilar da Palavra é basicamente um ponto chave para a iniciação à vida cristã e animação bíblica da vida e da pastoral indo de encontro com a adesão a Jesus Cristo. Fundamenta-se na centralidade do querigma, o primeiro anúncio, sendo um caminho de formação e amadurecimento. Nossas comunidades precisam ser, por excelência, lugar da iniciação à vida cristã, favorecendo a cada pessoa um encontro pessoal com o próprio Cristo.

A Palavra de Deus na Igreja no Mundo

O movimento de valorização e vivência da Palavra de Deus é um fruto do Concílio Ecumênico Vaticano II. Por meio da Constituição Dogmática Dei Verbum a Igreja ressalta a importância da Sagrada Escritura na Revelação de Deus, e na vida da Igreja; em suma a constituição nos diz que a Palavra de Deus não é um livro, mas um rosto comunicado e revelado. A Palavra é Jesus.

Dentro de seus seis capítulos, ressaltamos o capítulo terceiro sobre a inspiração divina e a interpretação da Sagrada Escritura, e o capítulo sexto sobre a Palavra na vida da Igreja. “Deus na Sagrada Escritura falou através de homens e de modo humano” (Dei Verbum, n.12), ou seja, assim como o Verbo se encarnou e assumiu a humanidade, a vida e cultura do seu povo, a Palavra de Deus está impregnada das expressões e linguagens próprias da vida e cultura do escritor sagrado, e que nos é transmitida pela Bíblia. Portanto, interpretar a Sagrada Escritura prevê um olhar sobre a Palavra a partir da vida humana, que deve levar a encarnação viva e atual da mesma Palavra, na realidade dos homens e mulheres de hoje.

A reflexão sobre a Palavra de Deus foi retomada na Exortação Apostólica Verbum Domini, trazendo o caráter performático da Palavra de Deus na vida da Igreja. A exortação retoma elementos da Dei Verbum, e aprofunda alguns debates. A nós cristãos e servidores da Palavra é importante compreender, a Igreja é “Casa da Palavra”. Na liturgia e nos Sacramentos tocamos e presenciamos esta potência transformadora e sacramental da Palavra de Deus, na vida dos batizados; experimenta-se a Palavra celebrada de forma viva e atual.

A Palavra de Deus, a nós comunicada, exige agora uma resposta. Tendo escutado a Palavra, meditado a Palavra, agora devemos anunciar a Palavra, este anúncio exige de nós desprendimento e serviço. A Palavra impulsiona cada homem e mulher que a escuta a sair de si e do seu conforto, para anuncia-la por meio de um testemunho autêntico e vivo. Anunciar a Palavra é defender a vida, os direitos e dignidade dos homens, é não se conformar com a violência, denunciar as misérias e injustiças, lutar pelas igualdades, cuidar da casa comum.

Anunciar a Palavra exige o testemunho com a vida, pois pelo testemunho se comunica e atesta a Palavra. A Palavra se encarna na vida e cultura humana, e cria relações de unidade e amor, superando as diferenças e criando comunhão com todos, independente de povo, classe, gênero ou religião. A Palavra por ser a pessoa de Jesus, torna-se central na vida da Igreja, por isso o Papa Francisco determinou que o terceiro domingo do tempo comum deve ser dedicado a celebrar a Palavra de Deus. Em seu motu próprio ele afirma:

A Sagrada Escritura desempenha a sua ação profética, antes de mais nada, em relação a quem a escuta, provocando-lhe doçura e amargura. […] “Na minha boca era doce como o mel; mas, depois de o comer, as minhas entranhas encheram-se de amargura” (Ap 10,10). A doçura da Palavra de Deus impele-nos a comunicá-la a quantos encontramos na nossa vida, expressando a certeza da esperança que ela contém (1 Pd 3,15-16). Entretanto a amargura apresenta-se, muitas vezes, no fato de verificar como se torna difícil para nós termos de a viver com coerência, ou de constatar sensivelmente que é rejeitada, porque não se considera válida para dar sentido à vida. Por isso, é necessário que nunca nos abeiremos da Palavra de Deus por mero hábito, mas nos alimentemos dela para descobrir e viver em profundidade a nossa relação com Deus e com os irmãos. (Aperuit Illis, n.12)

Inspirados nas Palavras do Papa Francisco e no espírito deste mês da Bíblia (“pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” Gl 3,28), vamos encarnar em nossa realidade pessoal, familiar e eclesial, a pessoa de Jesus que nos chama continuamente a lutar pela Vida, principalmente as dos pobres e marginalizados.

[1] Seminarista do 3º ano da Configuração. Cursa o 3º ano da Teologia na Faculdade João Paulo II (FAJOPA), reside em Marília-SP na Fraternidade Sant’Ana.

[2] Seminarista do 2º ano do Discipulado. Cursa o 2º ano da Filosofia na FAJOPA, reside em Marília-SP na Fraternidade Sant’Ana.

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