Arquidiocese de Botucatu

HOMILIA PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,28-32

O evangelho dominical nos insere na leitura do capítulo vinte e um do Evangelho segundo Mateus. O evangelista, neste capítulo recupera um ensino em parábolas de Jesus, que só aparece em seu evangelho, e, assim, o transmite para a sua comunidade: a parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32). Para compreende-la, se faz necessário abrir o horizonte de visão para o contexto no qual ela se situa.

O capítulo vinte e um apresenta a entrada de Jesus em Jerusalém. Ali, passa a sofrer forte resistência e oposição por parte dos lideres do povo, os chefes do judaísmo. Então, Jesus conta lhes uma parábola, que ilustra as atitudes de dois irmãos em relação ao convite/ordem de seu pai para que fossem trabalhar na vinha. O mestre não a conta esmo. Ele tem uma finalidade, bem como a própria parábola, a qual tem a função de provocar o leitor/ouvinte, chamando-lhe a atenção, para que mude de atitude.

Mateus direciona a parábola às lideranças. Ele a insere, na ordem do texto, imediatamente após um confronto de Jesus com elas acerca de João, o Batista, que, em última análise, representa uma recusa em relação à autoridade de Jesus. Parece que o evangelista procura fazer uma panorâmica histórica para seus leitores/ouvintes acerca do pecado dos líderes do povo que mataram os profetas de Deus (21,34-36), não acreditaram em João (21,25 e 32) e, por fim, levarão à morte o Filho de Deus (21,39). Temos, portanto, duas audiências para as quais são direcionadas esta parábola: em seu tempo, Jesus as direciona para as lideranças do povo; no tempo da comunidade, Mateus se apropria da parábola para corrigir os rumos da comunidade leitora do Evangelho. Sempre é necessário unir (ou fundir) estes dois horizontes. Mai uma vez a parábola contada por Jesus serve-se do tema da vinha. Já nos é sabido que ela sempre foi tida na tradição de Israel como metáfora do Povo de Deus. Isto posto, podemos mergulhar no texto bíblico.

O texto bíblico começa com Jesus se dirigindo aos que o ouviam, e, dentre eles, os chefes do povo, com a seguinte pergunta, “Que vos parece?” (v.28), para narrar lhes a parábola de um pai de família, dono de uma vinha que convida os filhos a trabalharem na plantação. O primeiro protesta, mas depois vai. O segundo, prontamente responde de modo afirmativo, mas não cumpre o que diz. O relato é privado de colorido e de particulares, centrando-se sobre a contraposição dos dois filhos: contraposição de respostas e de comportamento.

Com a pergunta, “Que vos parece?”, Jesus começa a narrativa da parábola como que provocando seus ouvintes, cumprindo uma das funções do gênero parabólico, e a conclui fazendo-lhes outra pergunta: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). As duas perguntas têm a intenção de envolver e comprometer os ouvintes tornando-os participantes do ensino, e identificando-se com as personagens. Deste modo, Jesus conseguiu colocá-los contra a parede tirando deles um juízo de autocondenação.

As lideranças do povo – os anciãos e sacerdotes – são caricaturados pelo segundo filho, que contradisse com a atitude o sim dos lábios. Não podem iludir-se e pensar que estão obedecendo à vontade de Deus apenas porque dizem ter aderido a ele, ostentando um culto fetichista da lei. É esta postura e atitude que Jesus quer denunciar através desta parábola.

O primeiro filho, que se nega a trabalhar na vinha, mas que posteriormente vai é a metáfora para os publicanos e às prostitutas, símbolos dos marginalizados, excluídos; dos sem voz e nem vez no tempo de Jesus, os quais tanto a religião, como o poder vigente marginalizavam. os pecadores, os desprezados e excomungados são os que representam o filho que obedeceu de fato ao pai, porque acreditam em Jesus, diferentemente dos mestres da lei e dos fariseus, observantes da lei, que o rejeitaram.

A pergunta de Jesus aos líderes é importante, além de os comprometer com a resposta que darão. “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O pai é a figura de Deus, aqui, na parábola. Fazer a vontade de Deus era o eixo sobre o qual girava toda a religião do AT e do judaísmo. E a lei era sua expressão escrita e clara. Mas agora a revelação plena e perfeita da vontade divina acontece em Jesus, que anuncia a vinda do Reino e chama à conversão (4,17). Ela, a vontade de Deus, passa, agora, através da sua pessoa. O Pai quer que os homens acolham aquele que ele enviou. A obediência não é feita de palavras estéreis e descompromissadas, mas com fatos concretos e precisos. Os verdadeiros obedientes são exatamente os pecadores, porque creram. A obediência chama-se agora fé/adesão no Filho. Pois obediência da lei acrescida à rejeição a Jesus, conforme denunciado pela parábola equivale a um sim meramente verbal, desmentido pelos fatos; descomprometido da vida.

De agora em diante, os homens colocam em jogo seu destino último decidindo-se a favor ou contra aquele que Deus enviou ao mundo. Jesus separa com um corte bem claro a humanidade em admitidos ao Reino e em excluídos do Reino. Não há alternativa. Encontrar Deus prescindindo de Jesus é ilusório.

Jesus fez a amarga experiência da rejeição obstinada dos observantes da lei mosaica, isto é, dos mestres da lei e dos fariseus. Ao invés disso, encontrou boa acolhida nos excluídos da sociedade puritana do seu tempo, isto é, nas mulheres de rua, fraudulentos cobradores de impostos, excomungados pela sinagoga. Estes acolheram o seu anúncio do Reino e mudaram de vida, abrindo-se na esperança ao futuro de Deus (BARBAGLIO, 1998, p.322).

A parábola dos dois filhos se situa neste quadro como denúncia do comportamento dos adversários comparados ao filho que diz sim só com a boca, mas se desmente com os fatos. Os cobradores de impostos e as prostitutas são como o primeiro filho, dizendo inicialmente não para a vontade de Deus, mas logo se arrependendo com a vinda de Jesus preparada por João – em caminho de Justiça, ou seja, cumprindo o querer de Deus. A elite religiosa se assemelha ao segundo filho, dizendo inicialmente sim, mas não fazendo a vontade de Deus e não tirando proveito da oportunidade para mudar sua opinião (21,29). Jesus, com essa parábola só faz evidenciar que existe divisão dentro de Israel: a elite poderosa excludente e aqueles das margens que acreditam.

A parábola contada pelo mestre clarifica as faltas dos líderes e adverte aos discípulos para não repetir seus erros. Ora, se a parábola, no tempo de Jesus serve para denunciar a oposição e rejeição das lideranças do povo frente ao Projeto de Deus anunciado por Ele, para Mateus ela tem fins bem catequéticos. Apresentar dois tipos de cristãos: os que vivem segundo o projeto do Reino e os que só falam, sem praticar. A comunidade do Reino não deverá reproduzir as mesmas atitudes dos líderes antigos do povo de Jesus. O evangelista quer, ainda, coibir ao interno da comunidade que o discípulo/fiel caia na tentação de levar uma vida de aparências, descompromissada e incoerente, que, de tão descompassada com o querer de Deus em Jesus, assume facetas puritanas e excludente para se autopreservar. A coerência do discípulo de Jesus, bem como da inteira comunidade cristã está na sintonia entre o falar e o fazer. Não se torna discípulo de Jesus (e membro de sua comunidade) somente pelo belo – e ortodoxo – discurso que se verbaliza ou assimila, mas quando se faz a vontade de Deus, que passa pela opção por Jesus e pela decisão de assumir seu modo de viver, no acolhimento aos excluídos e marginalizados desta história – a ortopraxis.

Diante da parábola deste domingo cabe-nos sempre a pergunta qual tem sido nossa atitude/resposta ao querer de Deus manifestado por Jesus.

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu – SP.

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